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    2/4/2006

    Mudança

     
    (...)
    Mas vejamos... até que ponto podemos mudar algo?
     
    - Não sei se nós podemos... -  respondeu o sacerdote; e continuou;
     
    - A realidade é que não somos nós a provocar a mudança, é a natureza da coisa encerrar em si mesma a mudança; esta só acontece tal como a ave põe o ovo e este apenas produz um novo pássaro no seu próprio tempo e na sua própria estação.
     
    O faraó olhou o sacerdote nos olhos e inclinou a cabeça pensativo; virou-se e caminhou lentamente até ao jardim exterior do templo, atrás o velho sacerdote seguia-o agarrado ao seu bastão. Lá fora o sol brilhava forte e os odores da forja ali tão perto enchiam o ar com o seu cheiro forte.
     
    - Mas então se o segredo da mudança não está no ritual e sim na pessoa a que se destina para que usamos nós o ritual?
     
    - Meu Senhor... - respondeu o sacerdote - o ritual é o meio através do qual a mudança é estimulada. Carregamos o objecto da mudança com a intenção que queremos. O ritual é apenas o veiculo, o modo escolhido de o energizar. Um dia na sua própria estação, a mudança finalmente acontece.
     
    O faraó olhou o céu. Os seus olhos encheram-se de lágrimas. O cheiro da forja já não se sentia. Lá dentro no fundo do templo todos os ruidos tinham cessado e o cheiro a deserto enchia-lhe agora as narinas e os sentidos.
     
    - Entendo agora... - disse vigorosamente depois de uma longa pausa.
     
    O sacerdote aproximou-se e olhando o faraó nos olhos disse.
     
    - O problema com os sacerdotes antigos é que se esqueceram das intenções do ritual. Ao fazerem-no mataram a mudança. O ritual passou a ser uma casca vazia. O ritual passou a ser uma masmorra onde os nossos antepassados ficaram prisioneiros. O ritual só é necessário como meio, jamais como fim em si mesmo.
    O jovem faraó olhou o simbolo do seu poder que estava na sua mão e então perguntou humilde ao sábio sacerdote.
     
    - É tudo o que preciso saber?
     
    - Sim meu Senhor. Se vos lembrares desta lição, nada mais tenho para vos ensinar.
    - É esse então o segredo que preciso para reinar. - E respeitosamente inclinou-se perante o sacerdote.
     
    5/5/2005

    O Pássaro

    Um monge passeava pelo pomar ao final da tarde, aproveitando da próximidade do riacho que corria em cristalinos saltos e sorrisos de frescura.

    Era um dia de verão como tantos outros, e a calma dessa tarde era degustada em suspiros de gratidão para com o Divino Criador por tanta beleza.

    Ao apróximar-se de uma frondosa árvore reparou num pequeno pássaro que no chão, de asa partida, lutava por voar de novo.

    O bom monge enternecido por tão valente criatura apanhou-o com infinito cuidado e levou-o para o mosteiro onde de imediato o tratou. Fez com as suas próprias mãos uma bonita gaiola e lá colocou o seu amigo alado em convalescencia.

    Semanas depois o pássaro, já de asa curada aguardava ansiosamente o momento da sua libertação. Com gratidão pedia à sua maneira, todas as tardes, ao seu amigo monge que o deixa-se partir.

    O monge agradado por tão pronta recuperação do seu pequenino amiguinho, sentava-se todos os finais de tarde a ouvi-lo cantar…

    Era frequente adormecer a ouvir as canções da floresta ali bem perto da sua austera cela. Todas elas cantadas belo bico generoso do passarito.

    …Dia após dia, as canções da floresta…

    Semana após semana, no mosteiro, ecoando nos cláustros meditabundos...

    Num final de tarde o monge foi encontrar o passarinho deitado, no fundo da bonita gaiola que ele tinha feito com tanto carinho… morto.

    O riacho continuou a correr cristalino, por entre o pomar todas as tardes, com um monge triste e sem o seu pequeno amigo...