2/7/2006
Deito fora as imagens.
Sem ti para que me servem
as imagens?
Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.
Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisiveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.
Serei feliz sem as imagens
As imagens não dão
felicidade a ninguém.
Era mais fácil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais dificil inventar-te,
e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.
E hei-de ser feliz ainda que
Isso não seja ser feliz.
Coração sem Imagens
Raul de Carvalho
6/6/2005
Ou a cascata, ou a música ouvida tão profundamente
Que nem sequer é ouvida, mas tu és a música
Enquanto a música dura. Isto são só alusões e conjecturas.
Alusões seguidas de conjecturas; e o resto
É oração, observancia, disciplina, pensamento e acção.
A alusão meio conjecturada, o dom meio compreendido, é uma Encarnação.
T.S. Eliot
Excerto de "Dry Salvages" em Four Quartets
6/1/2005
Por tudo o que me deste:
- Inquietação,cuidado
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como um louco...
- Obrigado, obrigado!
Por aquela tão doce e tão breve ilusão,
(embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!
Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
- Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado...
Sem ironia, amor: - Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!
Carlos Queiróz
5/2/2005
Dês que de vós me parti,
lume destes olhos meus,
por la fé que devo a Deus,
Já mais prazer nunca vi;
tan graves cuitas sofri;
sofr' e atento sofrer
que, pois non vos posso ver,
non sei que seja mi.
Choran con gran soedade
estes meus olhos cativos;
mortos son, pero andan vivos,
manteendo lealdade;
senhora, gran crueldade
fazerdes en olvidar
a quen non lhe praz mirar
se non vossa gran beldade.
Meus olhos andan mirando
noite e dia a todas partes,
buscando por muitas artes
como non moira penando,
mais meu coraçon pensando
non lhes quer dar prazer;
por vos sempre obedecer
eles non cessan chorando.
Alfonso Alvares de Villassandino
Cancioneiro de Baena
4/30/2005
Que súbita suspeita - dália enorme -
passara como a sombra nos teus cílios,
se a manhã chega enquanto de nós foge
o tempo que já tinhas destruido.
(...)
Fernando Guimarães
4/28/2005
Ai, como eu te queria toda de violetas
E flébil de cetim...
Teus dedos longos de marfim,
Que os sombreassem jóias pretas...
E tão febril e delicada
Que não pudesses dar um passo -
Sonhando estrelas, transtornada,
Com estampas de cor no regaço...
Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas -
Sonolenta,
Ruiva de éteres e morfinas...
Ah! que as tuas nostalgias fossem guizos de prata -
Teus frenesis, lantejoulas;
E os ócios em que estiolas,
Luar que se desbarata...
...
Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim -
Os teus espasmos de seda...
- Água fria e clara numa noite azul,
Água devia ser o teu amor por mim...
Mário de Sá-Carneiro
4/18/2005
Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga -
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão
Sophia de Mello Breyner Andersen in Musa
4/13/2005
A luz sorveu a treva
e digere o meu dano.
Agora sou feliz
ao ver com outros olhos
romper-se o véu da noite
sentido ao despertar
o grito dos espelhos
e a volúpia das rosas.
Edgar Carneiro in Depois de Amanhã