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    8/9/2007

    Alucinação Negativa

     

     

    “Diz-se que ocorre uma alucinação negativa sempre que um indivíduo é incapaz de percepcionar algo, ou alguma coisa que normalmente percepcionaria com os seus cinco sentidos.”

     

    Desde há vários anos que a classe política parece vir a divergir das necessidades reais da sociedade portuguesa. Esta fractura é tão marcada que actualmente é como se o cidadão comum, no essencial, vive-se desligado da sua classe política nos seus desejos, problemas e aspirações. Para o português médio, é como se os políticos tivessem construído um mundo virtual onde se movimentam sem qualquer ligação com o mundo real e onde o cidadão comum tem de viver.

     

    Um sinal disto, é na minha opinião, o resultado eleitoral das recentes eleições à câmara municipal de Lisboa. A maioria dos analistas alinhados com as máquinas partidárias esquece-se de notar ou de salientar que não foi o PS que ganhou as eleições; na realidade quem as ganhou foi o candidato que representa o Partido da Abstenção. E porquê? Porque foi de facto esse o “partido” que ganhou com uma maioria absoluta com 62,6% dos votos. Aliás, este partido tem vindo a ganhar sucessivas eleições desde há muitos anos. É um partido virtual porque não existe, mas que influencia resultados. Se o faz é a todos os níveis uma realidade a levar em conta.

     

    Esta análise conduz-nos à conclusão paradoxal que se o “partido” abstenção ganhou com 62,6% dos (não) votantes, a pessoa que irá governar a câmara municipal de Lisboa nos próximos tempos é de facto o eleito por este grupo de cidadãos. O Sr. António Costa na realidade ganhou as eleições com os (não) votos da maioria dos cidadãos de Lisboa. O PS não ganhou, nem sequer o seu representante. Na realidade todos os partidos políticos e candidatos perderam estas eleições e o novo presidente da câmara representa uma larga franja da população de Lisboa que é para todos os efeitos uma maioria silenciosa.

     

    Mas existe uma voz no silêncio...

     

    Como qualquer pessoa sensata o sabe. Quando um filho deixa de comunicar com os pais, é seguramente um sinal de problemas. Quando um conjugue deixa de comunicar com o outro é sinal que o casamento começou a naufragar. Quando um comerciante percebe que os seus clientes deixaram de ir comprar na sua loja, está a caminho da falência.

     

    O Sr. António Costa vai governar Lisboa num universo virtual, uma espécie de twilight zone política e social. Isto porque quem o elegeu não foi quem votou mas sim quem não votou.

     

    O preocupante é que não é assim só na câmara de Lisboa mas cada vez mais no sistema democrático ocidental. As eleições cada vez mais revelam esta voz silenciosa. Cada vez mais revelam um afastamento dos cidadãos dos seus sistemas de governo, logo dos seus governantes. Os políticos insistem em ignorar este rugido silencioso que nasce das entranhas da nossa civilização.

     

    Os resultados eleitorais revelam uma outra questão, ainda mais grave e que está na origem do afastamento entre os políticos/governantes e os cidadãos.

     

    O objectivo do exercício da política é a acção governativa. O objectivo da acção governativa é de facto o exercício do Poder. Este Poder é exercido em benefício da comunidade. Nas sociedades mais “primitivas”, frequentemente o poder é dividido entre dois grupos de indivíduos por um lado aqueles que na comunidade são considerados os mais sábios e por outro aqueles que possuem maior força física ou capacidade de a exercer, (com frequência ambos coexistem em estruturas sociais paralelas e representativas).

     

    Frequentemente vemos comunidades regidas por conselhos de “sábios”, ou de "ansiões" (que se apoiam na força da sabedoria e da experiencia de vida), que coexistem com a figura de autoridade máxima que representa o chefe ou o rei (que se apoia numa elite “armada”); ambos representam a generalidade da população. Existe nessas sociedades um delicado equilíbrio entre essas duas elites. Ambas existem com um e somente um propósito: A sobrevivência da comunidade. Esse delicado equilíbrio reflecte-se nas figuras arquetípicas do sacerdote/curandeiro (sabedoria/cura) e no rei/governante (poder/força). Sempre que um governante reúne em si as qualidades de ambos os arquétipos proporcionando prosperidade, as sociedades vivem uma idade dourada com uma mitificação da figura do governante. Quando esta idade de ouro desaparece, surgem os mitos do tipo sebastianicos.

     

    O que esquecemos com frequência é que essa dicotomia existe por uma razão, e esta está inerente às nossas necessidades de sobrevivência como espécie. Nesse sentido é arquetipica. Os seres humanos são uma espécie social e comunitária, que vive e sobrevive apenas como um todo; como um grupo.

     

    O lado sacerdotal (sábio) da comunidade administra o bem-estar desta (representado tantas vezes nas sociedades mais primitivas pela figura do xamã), e aqui por sacerdotal não se pretende fazer a apologia do “folclore”, da igreja ou da superstição, seja ela qual for, mas antes o lado humano, de protecção daqueles nas sociedades mais desfavorecidos e que necessitam de cuidados primários de saúde, educação e bem-estar social (entre outros). O lado governativo administra os aspectos de sobrevivência do grupo face a ameaças externas e assegura a lei e a justiça para todos dentro do grupo. Os governantes destas sociedades sabem que o seu poder emana da necessidade da comunidade de protecção, de sobrevivência e da necessidade de funcionar como um todo. A sua legitimidade de facto emana desta necessidade de sobrevivência do indivíduo e da comunidade.

     

    Quando a comunidade não se revê na figura do líder, no seu exercício do poder ou no modo como os seus interesses estão a ser representados, em suma, quando existe a percepção que o governante não exerce o poder governativo baseado na justiça, tendo em vista outros interesses para além dos que derivam da sua legitimidade última, “a sobrevivência da comunidade”, toma medidas para substituir o governante.

     

    A nossa sociedade e o seu sistema representativo republicano e laico reuniram na figura do estado os dois aspectos da governação. O que me parece que assistimos actualmente é a uma crescente desresponsabilização do estado, dos governos e do sistema político em geral em assumir esses dois papéis. Só assim se entende a acção governativa dos últimos anos, com as carências na área da justiça, na saúde, na economia e na educação. E não parece ser apenas o resultado da pressão da globalização sobre a nossa economia ou da necessidade de modernização do pais e das suas estruturas. Parece ser algo muito mais profundo.

     

    Os recentes casos vindos a lume na comunicação social sobre suspeitas de corrupção não ajudam. Fica a percepção que a cedência a interesses obscuros, não claros para o cidadão normal, tem levado às dificuldades económicas, e que a classe política assim que se encontra no poder busca os seus interesses em vez dos interesses da comunidade, deixando de dar respostas às necessidades do país real.

     

    A grande questão do cidadão português é saber se de facto, o exercício da governação está a ser feito em seu benefício ou se o exercício do poder derivou noutras coisas para além da necessidade de sobrevivência do grupo e da comunidade.

     

    A grande abstenção surge neste contexto como um fenómeno de resistência passiva em direcção à substituição dos nossos governantes. Quem pensaria na nossa sociedade democrática sofisticada e civilizada em fazer uma revolução para colocar em São Bento, em Belém ou na Praça do Município de Lisboa alguém que nos represente adequadamente? Ninguém… é necessário respeitar o "jogo" politico; pois então o que resta ao cidadão? A passividade, a não acção, o desinteresse.

     

    No nosso sistema governativo o cidadão é chamado a votar para os governos de quatro em quatro anos. Para além de figuras particulares como o Primeiro-ministro no governo, e no parlamento o Presidente da Assembleia, ou ainda algum parlamentar mais “ruidoso”, na realidade o cidadão comum não sabe quem o representa (por exemplo não sabe os nomes dos deputados) pois o sistema está baseado numa representação partidária perfeitamente separada do poder de influência responsabilizadora do cidadão. O Presidente da República exerce o magistério da influência mas o poder efectivo que afecta o cidadão e a sua família é exercido de facto pelo governo e pelos municípios. Nos municípios ainda existe alguma legitimidade directa, mas no governo e parlamento não. A legitimidade é representativa. Não existe ninguém a quem o cidadão se possa dirigir e que represente os seus interesses fora da arena municipal. Existe na população a percepção que não existe ninguém para o representar e que se responsabilize, que dê a cara.


    Quando os políticos na fase de campanha fazem promessas sistemáticas e depois imediatamente assim que assumem o poder, decidem não as cumprir por razões económicas, de conjuntura ou outras, é o descrédito do sistema.

     

    O cidadão não se interessa por essas razões. O cidadão interessa-se pela capacidade de dar comida, educação, saúde, segurança e tranquilidade aos seus filhos. De ver as suas queixas rápida, justa e convenientemente resolvidas.

     

    Existe a percepção que o nosso sistema representativo e governativo está a empurrar cada vez mais uma franja maior da população para os níveis mais baixos de sobrevivência. Existe a percepção na população que cada vez mais cidadãos estão a viver nos níveis mais baixos da hierarquia das necessidades de Maslow; isto é, estão a (sobre)viver ao nível das necessidades básicas fisiológicas de segurança e de conforto. Qual a disponibilidade intelectual, mental, familiar e social para reflectir na sua opção politica de quem chega a casa cansado de um dia de trabalho? De quem tem com filhos para cuidar; contas para pagar ou quem anda à procura de emprego e não sabe como pagar a conta da mercearia no final do mês? Quem tem o tempo ou o interesse em exercer o seu dever e direito de cidadania; quanto mais em reflectir na sua opção politica, especialmente quando a opção é mais do mesmo? Talvez então em dia de eleições, seja melhor ficar em casa ou ir descansar dando um mergulho na praia.

     

    Coisa comezinha pode-se argumentar; sim mas a vida do cidadão e das suas famílias é feita destas coisas.

     

    Pode-se argumentar que a crise social, a crise de valores e a crise económica que a nossa sociedade atravessa são consequências da globalização, da modernização, do desenvolvimento económico. Seja; mas é importante alertar que as sociedades e os sistemas políticos que não cumprem o seu papel de protecção para com aqueles que lhe dão legitimidade governativa, e que não cumprem o seu papel de protecção e solidariedade social com os mais desfavorecidos não parecem sobreviver muito tempo. A ausência desses mecanismos nas sociedades é o caos, é a barbárie, é a desumanização; numa palavra é o princípio do fim. Para mim, é uma das lições mais profundas da História da humanidade.

     

    Fica a impressão que o neoliberalismo selvagem a que assistimos actualmente faz-nos caminhar em direcção ao suicídio civilizacional.

     

    É neste contexto que entendo as recentes palavras de Saramago ao afirmar que o destino de Portugal é integrar-se em Espanha. Se os cidadãos não estão satisfeitos com os seus governantes e se não encontram soluções ou alternativas políticas, podem, e isso é um risco histórico muito real, optar por Libertadores”. A percepção é que aqui ao lado, os salários são mais altos, o custo de vida é mais baixo, as oportunidades de educação mais interessantes, a habitação mais barata, os impostos como o IVA mais baixos, e a lista podia continuar. Talvez não devêssemos ser tão rápidos em criticar o neo-iberismo de Saramago mas sim reflectir nas suas palavras e no que podem significar, (estou à vontade para falar nisto pois não nutro uma particular simpatia pelo homem ou pela sua obra).

     

    Voltando aos abstencionistas, os críticos e os “politólogos” (gosto especialmente desta nova palavra) podem sempre alegar que as pessoas não votam porque quiseram ir para a praia, ou porque tinham de se deslocar devido ao sistema de voto no local onde estão inscritos, ou porque tem coisas mais interessantes a fazer. Que por não se interessarem o suficiente para votarem não tem legitimidade política e social para se queixar dos governantes “eleitos”.

     

    Talvez tenham razão, mas para mim, os cidadãos não votam porque simplesmente não estão motivados. É talvez por isso que o partido comunista português vai mantendo os seus votantes tradicionais (pelo menos enquanto puderem se deslocar às urnas). Porque os mais antigos ainda se lembram e sabem o que foi viver sem liberdade; mantém viva essa lembrança e mobilizam-se. São exactamente esses mais antigos que mantêm ainda o partido comunista em posições de governo autárquico, pois eles votam. Não foi certamente com o voto destes que o Sr. António Costa ganhou as eleições.

     

    A elevada abstenção é um sinal preocupante para a nossa democracia, sobretudo para a nossa sociedade. Na realidade deve sê-lo para qualquer democracia. Não nos esqueçamos que Hitler assumiu o poder em eleições democráticas, e que Salazar também entrou para o governo em consequência dos mecanismos eleitorais da república, o mesmo foi verdade na Itália de Mussolini.

     

    Neste contexto, gosto particularmente da metáfora da mercearia:

     

    Imaginemos que os nossos políticos são donos de uma mercearia, numa rua onde existem outras mercearias...

     

    Vamos imaginar que os clientes dessa mercearia começam a se queixar dos preços elevados e do mau serviço; pouco depois começam a sentir-se constrangidos por o dono da mercearia gritar a plenos pulmões, na sua mercearia, que as reclamações dos clientes não fazem sentido, pois a qualidade dos seus produtos e do serviço é de facto a melhor naquela rua (ainda que vários casos de intoxicação alimentar e de maus modos no atendimento sejam fonte do falatório na vizinhança).

     

    Os clientes tudo suportam pacientemente pois tinham simpatia pelo antigo dono da loja, estavam habituados a ir ali fazer as suas compras; esperam que o novo dono resolva os vários problemas naturais resultantes da mudança de gerência... Depois de muita espera nada acontece.

     

    Vamos imaginar que depois de algum tempo os clientes ficam silenciosos e deixam de se queixar pelo mau serviço, e que passado ainda uns tempos começam a comprar nas outras mercearias. Vamos imaginar que o dono dessa mercearia se apercebe de que está a ficar sem clientes, e que persiste nas suas práticas de altos preços e nas suas atitudes anti-sociais…

     

    Qual será o fim do seu negócio? Para onde caminha essa mercearia? Podemos censurar os clientes por quererem ir comprar nas outras mercearias onde são mais bem atendidos? Será que devemos esperar que esse negociante permaneca no mercado muito tempo?

     

    Pois é… e voltando ao Sr. António Costa, é assim que na minha opinião ele se tornou o presidente da Câmara Municipal de Lisboa; pelo (não) voto dos Lisboetas. Um país surreal numa civilização cada vez mais surrealista.

     

    É por isso que o fosso entre governantes e governados continua a alargar-se de eleição para eleição. É por isso que o desinteresse continua a grassar e que a abstenção deveria ser encarada como uma ameaça séria à nossa sociedade, até mesmo à nossa civilização.

     

    Em Portugal um dia destes ou vamos todos “comprar” nas mercearias da Europa, (uma vez que de facto somos cidadãos europeus de livre transito), ou seremos “comprados” numa espécie de OPA (tão na moda actualmente), só esperemos que não seja hostil. Mais uma vez não nos esqueçamos que alguns dos grandes ditadores do século XX nasceram de democracias cujos governantes divergiram na prática das necessidades da maioria dos seus governados. Perderam assim a sua legitimidade social; de certa forma, esses ditadores nasceram precisamente do silêncio e do “desinteresse” de largas franjas da população.


    Ao continuarmos a recusar olhar para a realidade do cidadão que não vota estamos simplesmente a Alucinar, mas não uma alucinação qualquer, estamos a viver colectivamente uma Alucinação Negativa